Desabrigados em Alagoas: um ano de abandono e sofrimento

Qual o limite tolerável para a indignação? Até quando seremos obrigados a sentirmo-nos impotentes? Como transformar tamanha revolta em ações práticas e transformadoras? Até quando esperar ações efetivas do atual governo de Alagoas?

Dia 18 de junho de 2011, sexta-feira, blogueiros, amigos e o Deputado Estadual João Henrique Caldas (presidente da comissão das enchentes da ALE) partiram de Maceió em direção aos alojamentos dos desabrigados de Murici, Branquinha, União dos Palmares e São José da Lage. O dia é simbólico: há um ano essas cidades sofreram a pior tragédia de suas histórias, junto com outras tantas às margens do rio Mundaú em Alagoas assim como também algumas cidades de Pernambuco.

Os números da destruição foram implacáveis com as diversas vidas humanas e com a infra-estrutura das cidades. Foram pontes, ruas, milhares de casas, trilhos, prédios comerciais, escolas, igrejas, paisagens completamente redefinidas. Uma nova estética brotou da força daquelas águas e pôs à baila as deficiências administrativas, sociais, econômicas e, principalmente, políticas de gestores municipais e do governo de Alagoas. O caos estava instalado!

O cenário era de guerra. Não teria sido exagero algum se os telejornais de Alagoas, do Brasil e do mundo noticiassem que aquela foi uma tragédia “tsunâmica”. Ou ainda se afirmassem que um tornado, um furacão, um tremor de terra, tivesse sido o responsável pelo “fenômeno” que acabou com essas cidades. No entanto o problema foi as já tradicionais fortes chuvas daquele mês somadas às quedas das barragens clandestinas de Pernambuco e Alagoas que atendem – ilegalmente – aos grandes latifundiários desses dois Estados pobres.

Campanhas e mais campanhas de arrecadação de alimentos, agasalhos, água potável e medicamentos rodaram o Brasil, demonstrando o quão o povo brasileiro – comovido – é facilmente arrebatado por forte sentimento de solidariedade e companheirismo. O governo federal, por sua vez, encaminhou milhões de reais para que fossem feitos alojamentos para as vítimas, assim como um plano especial via Caixa Econômica Federal (minha casa minha vida) garantindo a reconstrução de mais de 15 mil casas para os desabrigados.

Enfim, dessa história todos estamos muito bem informados. Foram inúmeras reportagens focadas na dor e nas perdas de milhares de alagoanos e pernambucanos em 2010. Centenas de fotos emocionantes, vídeos e reportagens rodaram o mundo mostrando o tamanho do estrago “causado pelas chuvas”.

Porém, como diria Elis Regina, “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos ainda somos os mesmos” e a dor só aumenta.

Um ano depois, a visita a essas cidades demonstrou que a situação atual talvez seja ainda pior, pois a ferida só aumenta com angústia dos desabrigados. Em muitos lugares ou nada foi feito ou o que foi feito está em péssimas condições de uso. A estrutura dos alojamentos é inexplicavelmente parecida com campos de concentrações nazistas. Não encontramos condições mínimas de salubridade, dignidade e respeito ao cidadão, com raríssimas exceções.

Em Murici, nossa primeira cidade visitada, o desafio inicial foi conseguir chegar ao local dos alojamentos. O caminho principal não permitia que pequenos carros, sem tração nas quatro rodas, percorressem o trajeto sem atolar, portanto tivemos de desviar e mudar o itinerário por dentro da cidade.

Tal mudança fez com que entrássemos em contanto com o vereador e presidente da Câmara Municipal – Sr. Anizão. O mesmo contribuiu com nossa comitiva de blogueiros, levando-nos até o local desejado através de um caminho diferente do habitual. Chegando lá a primeira surpresa: o local fica ao lado da favela da Portelinha, que enfrenta dificuldades extremas e registra alto índice de violência de acordo com o vereador.

Em seguida a triste constatação de crianças largadas à própria sorte, brincando na lama; além da falta de segurança; caixas d’água ainda no chão; nada de lavanderias prontas, banheiros ou pias sem quaisquer sinais de conclusão. Toda a infra-estrutura do alojamento precisando ser concluída, tudo pela metade, no chão, abandonado e/ou danificado. Apenas as cozinhas estão prontas e a alimentação está sendo distribuída regularmente em marmitas térmicas de plástico que crianças e idosos carregam para enfrentar filas enormes em busca de suas refeições.

As barracas são verdadeiros fornos humanos, com temperaturas insuportáveis e repletas de garrafas pets para abastecer seus moradores. O chão é forrado com lona e está sempre úmido e/ou enlameado, como pudemos constatar em várias situações ao adentrarmos nas barracas, sempre a convite dos desabrigados.

Em seguida, fomos à cidade de Branquinha. Primeira parada foi nas margens do rio e pudemos constatar casas destruídas, ruas e trilhos danificados e a marca da altura que a água alcançou no dia da tragédia. Em Branquinha também vimos trabalhadores da usina atravessando o rio por meio de cabo de aço e pequena “balsa” improvisada, pois a ponte não está pronta ainda. Verificamos uma postura interessante do gestor municipal de Branquinha, pois em toda cidade existem cartazes, faixas clamando por saúde, educação, entre outras necessidades das quais o governo do Estado ainda não tomou providências.

Em seguida fomos para União dos Palmares e visitamos o alojamento dos desabrigados das enchentes. A situação também é grave e desumana, no entanto um pouco melhor do que a encontrada em Murici. Lá as caixas d’água estão suspensas, no entanto as lavanderias, pias e banheiros foram construídos irregularmente, com claros sinais de superfaturamento e péssimo material de construção, além de falhas técnicas gritantes. Os banheiros estão trancados com correntes e cadeados. As pias e as lavanderias estão destruídas antes mesmo de serem entregues por total falta de qualidade e negligência técnica.

Ainda em União dos Palmares visitamos o Programa Mesa Z (rádio), com blogueiros da cidade. O debate foi extremamente rico com participação de ouvintes e a dura constatação de que lá existem desabrigados de enchentes passadas que ainda estão em alojamentos que se transformaram em verdadeiras áreas de exclusão social, sem a menor perspectiva de participarem do atual cadastramento para receberem casas do programa de reconstrução.

Por fim, fomos até São José da Lage, o único alojamento com um pouco de dignidade. Banheiros funcionando, pias prontas servindo a população e lavanderias sendo utilizadas com água das caixas também suspensas. Foi o único alojamento com segurança e com uma pessoa responsável (assistente social) que apresentou os moradores e a estrutura física do local.

As barracas em São José da Laje tinham sido trocadas, pois o modelo que foi encaminhado num primeiro momento não se adaptou às necessidades das pessoas e da área (terreno) escolhida para alojá-las. Ainda existiam alguns poucos modelos antigos, um tanto arredondados, diferentes do modelo que utilizam no momento, mais quadrado. Entretanto foram quase 11 meses de barracas inadequadas até trocarem para o padrão atual.

Por fim, em todas as cidades visitadas o descaso é a marca mais gritante. A falta de cuidado e atenção com a população atingida pelas enchentes é visível. A ausência total do poder público extravasa o limite do tolerável, arruína esperanças e torna o amanhã um lugar extremamente incerto.

As maiores vítimas são as crianças. Sem escolas, sem áreas de recreação, sem projetos sócio-educativos, sem brinquedos, sem amparo, sem medicamentos, sem agasalhos e, principalmente, sem atenção e afeto necessário.

Qual o limite tolerável para a indignação? Até quando seremos obrigados a sentirmo-nos impotentes? Como transformar tamanha revolta em ações práticas e transformadoras? Até quando esperar ações efetivas do atual governo de Alagoas?

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7 Comentários

Arquivado em Política

7 Respostas para “Desabrigados em Alagoas: um ano de abandono e sofrimento

  1. Tá. Mas não vou ler! Talvez, depois, eu comente. :p

  2. Você deve estar no EBA. Eu estou indo comer sanduíche em algum lugar protegido da chuva que cai agorinha. Bye. 🙂

  3. Triste realidade companheiro… Um ano depois e nada foi feito em prol desse povo sofrido da nossa Alagoas!

    Abração e parabéns pelo texto!!

  4. Foi muito doloroso ver tudo aquilo meu caro, mas alguém precisava mostrar o que está acontecendo!

  5. CanAlmeida

    Fantástico o texto, como sempre!! É incrível a indignação que desperta! Esta situação é mesmo inaceitável! Espero que nosso alerta possa acordar a sociedade para este nosso “Projeto Umbigo – não o seu, o do próximo”! Parabéns, Fleming! Show de cidadania!

  6. Meu caro Fleming…realmente, só estando lá pra ver a realidade tão cruel que aquelas pessoas estão vivendo! Acredito que colaboramos um pouco para que esta situação não “morra na praia”. Apesar de chocante, foi muito bom estar lá! Parabéns pela descrição fiel dos fatos.

  7. Pingback: Links Alagoanos #14 | Blog do Marques

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